Segura o coco camará segura o coco
Segura o coco não deixa coco quebrar
O dia hoje me despertou. Isso é
meio inédito, considerando o complexo de Bela Adormecida que eu tenho.
Geralmente preciso de barulho e incentivo pra deixar de rolar na cama e
acordar de verdade. Levantar e começar a viver. Mas hoje o dia estava tão lindo que
eu não consegui resistir. Adoro quando o dia começa assim! A gente olha pela janela e lá fora, sob um céu
azul vibrante, tudo brilha daquele jeito surreal de dia quente de verão.
Especialmente numa cidade onde todo dia é dia de verão. É muito bonito. Amo
dias que acordam com gosto de promessa boa. Dia de calor envolvente, não
opressivo, que pede praia e água-de-coco!
Eu detesto praia.
Aquela areia que
faz cócegas em pés sensíveis, invade seu corpo indecorosamente, gruda em todo
lugar que consegue alcançar... E a maresia! Coisa mais irritante, a maresia,
embaraçando cabelos, embaçando óculos... E o pior de tudo é que ela não respeita
limites! Cada um no seu quadrado, ora bolas! Precisa sair da praia e perambular pela
cidade, se enfiando em ônibus, escolas e apartamentos? É uma falta de respeito.
Do mar eu até gosto, assim, de longe.
De preferência sentada em alguma barraca no asfalto, na sombra, olhando como brilha
daquele jeito bonito que faz a gente imaginar que a cidade inteira foi
construída em cima de uma jóia... Mas é salgado. “Ó, mar, salgado mar...” e
trá-lá-lá. Tinha que ter sal? Tinha que fazer o olho arder quando a gente
mergulha? E essas ondas que levantam areia e facilitam a invasão nos biquínis? Mar,
ondas, maresia, areia... Não, não, isso estraga a beleza da coisa. E é melhor nem começar a falar do sol!
Ai de mim, pobre mortal, fadada a
suportar as angústias de quem vive perto da praia. Ir à praia é prova de amor! Aqueles que já
tiveram o prazer de me ver nesse paraíso de tortura sabem bem do que estou
falando. O sofrimento é real e crescente. Quer saber se eu gosto de você? Convide-me
para ir à praia. É mais eficaz que uma pergunta direta.
Mas, olha só!, de água-de-coco eu
gosto de verdade! Gosto da poesia presente em um coco. Aos meus olhos, é mais
ou menos como se toda essa magia da praia, esse encanto que seduz a humanidade,
estivesse presente no coco, boiando em sua água doce, dentro daquela forma
redonda e bonita... Só que sem a areia incômoda que se enfia por partes do seu
corpo que você nem sabia que existiam. E sem a maresia que embaça e embaraça. E
sem o sol. Não vamos falar do sol!
Acontece que o coco, com aquelas
cores agradáveis e sabores sutis, me lembra bossa. E bossa me lembra praia.
Assim, toda vez que tomo água de coco escuto a bossa começar a tocar em minha
cabeça. E ouço o marulhar das ondas. E o cheiro de maresia que invade meu
sistema não é tão horrivelmente salgado, mas sutil. Rastro do mar que o vento
revela, indicando o caminho pra chegar num recanto de paz, paraíso dos
paraísos, onde a areia não gruda!
É, é bem bonita a praia que mora
no coco. Acho que deveria ter falado logo de cara sobre ela, teria escrito com
mais paixão. Se bem que, sendo uma moça de emoções intensas, meu detestar
também é bastante apaixonado.
Mas, enfim... O fato é que não sou lá muito experiente com essa coisa de crônica. Pra mim todas as variações que se parecem com contos... São contos. E crônica, crônica mesmo, é quando você assume o que está escrevendo como seu, é usar primeira pessoa e contar fatos da sua vida, ou da vida em geral, mas expressando suas opiniões muito claramente.
Mas, enfim... O fato é que não sou lá muito experiente com essa coisa de crônica. Pra mim todas as variações que se parecem com contos... São contos. E crônica, crônica mesmo, é quando você assume o que está escrevendo como seu, é usar primeira pessoa e contar fatos da sua vida, ou da vida em geral, mas expressando suas opiniões muito claramente.
Sei que não é assim. Sei mesmo,
minha mãe é professora de português e literatura. Mas é assim que eu me sinto e
é dessa liberdade que meu Eu precisa pra ser Lírico.
Assim, dentro da minha
classificação, esta é a primeira crônica real que escrevo em anos! Não sou de
crônicas, acho uma exposição arriscada demais. Prefiro permanecer escondida na
segurança da ficção, por trás desse meu Eu Lírico que é muito mais desinibido e
tranquilo que eu. E mais divertido, também. Ele não se sente culpado por nada, não tem
pudor algum, apenas sai por aí, pulando de conto em conto, poesia em poesia,
escancarando a alma na fragilidade do papel, sem ter medo de vê-la rasgada por
alguém. É cabra macho, esse meu Eu Lírico.
Mas a praia dentro do coco e a
bossa me inspiraram. Especialmente porque bossa e praia me lembram um amigo
muito doce que, se por um lado eu já sabia ser talentoso, por outro não
imaginava o tamanho do talento.
Ele é cronista. Acho que não se vê dessa forma, mas é um cronista nato. E só Deus sabe como o talento me comove. Sou dessas bobas que ficam com os olhos marejados no final de um texto bonito. E bem escrito.
Ele é cronista. Acho que não se vê dessa forma, mas é um cronista nato. E só Deus sabe como o talento me comove. Sou dessas bobas que ficam com os olhos marejados no final de um texto bonito. E bem escrito.
Daí, tendo lido os textos dele,
de uma simplicidade genial, eu me animei. Resolvi tentar uma crônica também,
apesar da minha total falta de malemolência para com o gênero. E da minha
inabilidade para transformar o corriqueiro em algo divertido, trágico ou admirável... Como, aliás, esse amigo faz. Mas tentei...
Equilibrei o coco no topo da ladeira, fiz firula para dar aquele ar de suspense e chutei... Infelizmente ficou mais que evidente que sou ruim de chute, não tenho força na perna e a mira é péssima.
Equilibrei o coco no topo da ladeira, fiz firula para dar aquele ar de suspense e chutei... Infelizmente ficou mais que evidente que sou ruim de chute, não tenho força na perna e a mira é péssima.
Você vê, já misturei coco com bola, e agora ele
está rolando ladeira abaixo, representação máxima do desastre! E antes de fazer
mais bagunça, alguém segure esse coco, que eu vou sair do baba e volta pro
esconde-esconde.
É mais a minha praia.




