terça-feira, 15 de maio de 2012

Segura o Coco



Segura o coco camará segura o coco 

  Segura o coco não deixa coco quebrar 


O dia hoje me despertou. Isso é meio inédito, considerando o complexo de Bela Adormecida que eu tenho. Geralmente preciso de barulho e incentivo pra deixar de rolar na cama e acordar de verdade. Levantar e começar a viver. Mas hoje o dia estava tão lindo que eu não consegui resistir. Adoro quando o dia começa assim!  A gente olha pela janela e lá fora, sob um céu azul vibrante, tudo brilha daquele jeito surreal de dia quente de verão. Especialmente numa cidade onde todo dia é dia de verão. É muito bonito. Amo dias que acordam com gosto de promessa boa. Dia de calor envolvente, não opressivo, que pede praia e água-de-coco!

Eu detesto praia. 
Aquela areia que faz cócegas em pés sensíveis, invade seu corpo indecorosamente, gruda em todo lugar que consegue alcançar... E a maresia! Coisa mais irritante, a maresia, embaraçando cabelos, embaçando óculos... E o pior de tudo é que ela não respeita limites! Cada um no seu quadrado, ora bolas!  Precisa sair da praia e perambular pela cidade, se enfiando em ônibus, escolas e apartamentos? É uma falta de respeito.

Do mar eu até gosto, assim, de longe. De preferência sentada em alguma barraca no asfalto, na sombra, olhando como brilha daquele jeito bonito que faz a gente imaginar que a cidade inteira foi construída em cima de uma jóia... Mas é salgado. “Ó, mar, salgado mar...” e trá-lá-lá. Tinha que ter sal? Tinha que fazer o olho arder quando a gente mergulha? E essas ondas que levantam areia e facilitam a invasão nos biquínis? Mar, ondas, maresia, areia... Não, não, isso estraga a beleza da coisa.  E é melhor nem começar a falar do sol!

Ai de mim, pobre mortal, fadada a suportar as angústias de quem vive perto da praia.  Ir à praia é prova de amor! Aqueles que já tiveram o prazer de me ver nesse paraíso de tortura sabem bem do que estou falando. O sofrimento é real e crescente. Quer saber se eu gosto de você? Convide-me para ir à praia. É mais eficaz que uma pergunta direta.

Mas, olha só!, de água-de-coco eu gosto de verdade! Gosto da poesia presente em um coco. Aos meus olhos, é mais ou menos como se toda essa magia da praia, esse encanto que seduz a humanidade, estivesse presente no coco, boiando em sua água doce, dentro daquela forma redonda e bonita... Só que sem a areia incômoda que se enfia por partes do seu corpo que você nem sabia que existiam. E sem a maresia que embaça e embaraça. E sem o sol. Não vamos falar do sol!

Acontece que o coco, com aquelas cores agradáveis e sabores sutis, me lembra bossa. E bossa me lembra praia. Assim, toda vez que tomo água de coco escuto a bossa começar a tocar em minha cabeça. E ouço o marulhar das ondas. E o cheiro de maresia que invade meu sistema não é tão horrivelmente salgado, mas sutil. Rastro do mar que o vento revela, indicando o caminho pra chegar num recanto de paz, paraíso dos paraísos, onde a areia não gruda!

É, é bem bonita a praia que mora no coco. Acho que deveria ter falado logo de cara sobre ela, teria escrito com mais paixão. Se bem que, sendo uma moça de emoções intensas, meu detestar também é bastante apaixonado. 


Mas, enfim... O fato é que não sou lá muito experiente com essa coisa de crônica.  Pra mim todas as variações que se parecem com contos... São contos. E crônica, crônica mesmo, é quando você assume o que está escrevendo como seu, é usar primeira pessoa e contar fatos da sua vida, ou da vida em geral, mas expressando  suas opiniões muito claramente.
Sei que não é assim. Sei mesmo, minha mãe é professora de português e literatura. Mas é assim que eu me sinto e é dessa liberdade que meu Eu precisa pra ser Lírico.

Assim, dentro da minha classificação, esta é a primeira crônica real que escrevo em anos! Não sou de crônicas, acho uma exposição arriscada demais. Prefiro permanecer escondida na segurança da ficção, por trás desse meu Eu Lírico que é muito mais desinibido e tranquilo que eu. E mais divertido, também.  Ele não se sente culpado por nada, não tem pudor algum, apenas sai por aí, pulando de conto em conto, poesia em poesia, escancarando a alma na fragilidade do papel, sem ter medo de vê-la rasgada por alguém. É cabra macho, esse meu Eu Lírico.

Mas a praia dentro do coco e a bossa me inspiraram. Especialmente porque bossa e praia me lembram um amigo muito doce que, se por um lado eu já sabia ser talentoso, por outro não imaginava o tamanho do talento. 
Ele é cronista. Acho que não se vê dessa forma, mas é um cronista nato. E só Deus sabe como o talento me comove. Sou dessas bobas que ficam com os olhos marejados no final de um texto bonito. E bem escrito.

Daí, tendo lido os textos dele, de uma simplicidade genial, eu me animei. Resolvi tentar uma crônica também, apesar da minha total falta de malemolência para com o gênero. E da minha inabilidade para transformar o corriqueiro em algo divertido, trágico ou admirável... Como, aliás, esse amigo faz. Mas tentei... 
Equilibrei o coco no topo da ladeira, fiz firula para dar aquele ar de suspense e chutei... Infelizmente ficou mais que evidente que sou ruim de chute, não tenho força na perna e a mira é péssima.  

Você vê, já misturei coco com bola, e agora ele está rolando ladeira abaixo, representação máxima do desastre! E antes de fazer mais bagunça, alguém segure esse coco, que eu vou sair do baba e volta pro esconde-esconde. 
É mais a minha praia.

domingo, 13 de maio de 2012

De faces e fases




Bem no comecinho ela pensou que dava pra contar, numerar, fotografar, arquivar em quatro pastas, uma cor pra cada, com folheto explicativo na parte de trás. Quatro faces dela mesma, não distintas, mas complementares...  Várias mulheres dentro de um só corpo. Algo entre uma alma de atriz e múltipla-personalidade... Uma compassiva e doce, outra forte e decidida.  Mais uma, furiosa e louca, e então outra, indecisa e insegura.  

Tola que era, não percebeu que as quatro faces eram apenas fases, momentos tão rotativos quanto o próprio movimento que faz a Terra girar... Fases de uma mesma lua, satélite e órbita de si mesma. Não eram quatro mulheres, mas uma, que se transmutava, às vezes meio monstruosamente, em quatro... 

Uma que irritada gritava, furacão, derrubando o céu, desabando em tempestade de lágrimas de fúria. Que não deixava o copo encher, para não transbordar maus- sentimentos. Explodia no instante da faísca, às vezes sem classe e sem meio-termo, perfeita representação da ira plena da natureza.  E arquitetava planos mirabolantes, grande mestre da vingança irreal, que tinha por definição o fim de jamais ser concretizada. Mas que assim saciava o desejo e matava a raiva que corrompia o coração. 

Outra que decepcionada calava e engolia o choro para não fazer outro chorar, com aquela força que só tem quem aceita o amor com tudo que ele pode oferecer, inclusive as chagas. E olhava com a esperança de quem confia que um dia a situação vá mudar. Então tentava de novo, porque há tempos decidira que esperar o melhor valia à pena, e otimismo ela tinha de sobra pra gastar. E, pensando bem, distribuir amor, desses não-correspondidos mesmo, não preenche o lugar daquele “alguém”, mas acalenta coração que esfriou durante a espera. E se a decepção era muito amarga, colhia sorrisos para adoçar a dor. 

Havia, também, aquela que foi rejeitada por quem quis e desejada por quem nunca sonhou. E que sacudia os cabelos e falava, meio gritando, meio aos sussurros, porque parte do encanto era a mudança. E que embriagada de amor chorou. Foi mais porre que saudade, mas chorou. E falou dele, contou de novo aquela história boba, usando os farrapos daquelas desculpas para enfaixar coração. E ainda bêbada, mais de amor que álcool, escreveu... Em terceira pessoa, porque era mais fácil fingir que o coração partido foi fictício, que dava pra juntar os pedaços com cola de imaginação... E a dor, real e palpável, ela transformava em tinta e  poesia.

Mas, como tudo na vida é renovação, ela completava o ciclo e iniciava outra fase, de esperança e de fé. Fase de frio na barriga pela expectativa, de sorriso bobo por lembranças daquela conversa... Do primeiro raio de sol que reflete um novo olhar... De um beijo salgado... Do cheiro de maresia... Da delícia que é encontrar surpresas ao seguir, com passos meio incertos, deixando dois pares de pegadas na areia. 

Era fase de brilho intenso, como se o satélite miraculosamente virasse estrela e começasse a distribuir sua luz, iluminando cantos escuros de tristeza, vestígios da rejeição. E atraía tudo à sua órbita, como se a galáxia estivesse de ponta-cabeça e a Terra começasse a girar ao redor da lua, alterando a ordem natural das coisas. 
E, mais uma vez, precisava registrar essa loucura, explicar detalhadamente como uma de suas fases podia modificar um universo inteiro... Seu universo inteiro... 

E enquanto escrevia, no espaço de cada letra e afirmação, ela se deu conta de que talvez fosse ela quem estava de cabeça-para-baixo. Que, quem sabe, não fosse satélite ou estrela, mas um planeta... Um mundo inteiro que era influenciado pelos movimentos do universo, mas que dentro de si fazia suas próprias evoluções, mudanças, transformações.  E percebeu suas faces eram vislumbres do que estava por vir, e as fases eram apenas preparação para o momento de transição.  Nem uma nem outra a definiam, de fato.

Ela era feita de estações.

domingo, 22 de abril de 2012

Sabor de Fruta Mordida


"Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva"

Daquele sumo que escorre pelo queixo, quando você perde o pudor, crava os dentes na carne tenra, suculenta, os dedos que seguram firme aquelas formas, que rasgam tudo que possa impedir o roçar dos lábios na pele nua da fruta. Não usa talheres, esquece essa etiqueta besta que apaga a beleza de ser simples. E a delícia de lamber os dedos, aproveitando cada gota de sabor, desprezando qualquer coisa menos que natural. Ele tem esse gosto de liberdade. Gosto irreverente de selva, de rebeldia animal, que não se dobra às imposições tóxicas das cidades. 

E por isso às vezes é ácido, mas que não deixa de ser gostoso pelo acentuado do sabor que, invadindo a boca, molha a língua e estremece todo o corpo a partir daí. Tão intenso que é impossível senti-lo sem reagir... E provar de novo, só pra estar seguro de reconhece a saborosa força que tem.

Às vezes é de um amargor sentido. Fruto pequeno, meio ressecado, de sabor marcante. Gosto travoso de decepção, que se faz sentir quase de má vontade, e por isso incomoda o tempo que dura na boca... E dura muito, vestígios no fundo da língua, destoando dos sabores mais suaves.

Mas quando amadurece é doce. Tão preciosa a safra, pouco se deixa provar. Num lugar escondido na intimidade da selva, com longo período de espera, raras são as mãos capazes de fazer essa colheita de acesso difícil. Mas quando se tem essa fruta nas mãos, quando se saboreiam seus pedaços, rolando-os na boca com molhada doçura, é possível sentir todo o equilíbrio da natureza. A tranquilidade de um sentimento que cresce atrelado à sensação.

E também picante, para manter esse equilíbrio de “fruto sensação” e “fruto sentimento”, que contraria toda a lógica da indiferença urbana, da relação transgênica em escala industrial.
É picante, daquelas que ardem na língua e despertam fogo em todo lugar. Fazem reagir aquele instinto aprisionado pelas jaulas da cidade, animal preso é mais valente, impetuoso, bravo... Instinto represado quando escapa incendeia a selva de pedra, de plumas, de lençóis. O ardor que levanta e destrói o juízo, os pudores, as amarras, devorando com voracidade quem der a primeira mordida.

Muitos sabores, formas, sensações, dessa fruta misteriosa que não tem época certa de colheita e nem padrão produção. Apenas germina, cresce, frutifica, sem fiscalização, como tudo que é natural, que é livre.

Desses sabores seus eu nunca provei, mas sei que existem, sim. E espero que o momento chegue, tão natural quanto o instinto que a humanidade gosta de aprisionar. Espero provar todos os seus gostos, em um beijo com sabor de fruta mordida. E sentir seu sumo escorrer em mim, rastro doce da delícia de também ser livre. Gosto suave da fruta tenra do amor.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Da Noite Sem Lua (ou Via-Láctea)

"E quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima..." (Renato Russo)


Ela sabia que um dia chegaria àquele ponto. Sabia, e mesmo assim seguiu em frente, impulsionada por aquela sensação de euforia irrefreável quando um novo caminho surge depois da curva. Era dessas que não rejeitam uma oportunidade. Se fosse inventada, então, melhor ainda, não perdia tempo com baboseiras como fatos e probabilidades. Melhor mesmo era pensar no impossível, que dava mais vontade de alcançar.

E assim ela foi. Lançando-se naquele caminho tortuoso que começava nuns olhos negros de noite sem lua e todo mundo sabia onde e como ia terminar. Mas ela foi, entusiasmada, desfrutando cada passo sob o céu aberto, entregando-se apaixonadamente ao frescor do vento que soprava aquele perfume conhecido para novas direções, apreciando a delícia de descobrir cada surpresa de rumar ao desconhecido. Não tinha medo de andar no escuro.

Menina boba, com mania de poesia. Dessas que sabem que toda história tem ponto final, mas escrevem como se a tinta do sonho não fosse acabar. Ela escrevia aquele caminho, vendo beleza na poeira subindo pela estrada e sonhando romances na calada da noite deserta. E sorria. Não podia evitar sorrir quando pensava naquele outro riso. Aquele lá, onde a tal lua, fugida da noite, foi inventar de aparecer.

Seu caminhar era confuso, inconstante que era o seu destino.  Calhava de mudar de direção justo quando pensava que ia alcançar o atalho que levava ao esconderijo da lua. Se perdia todas as vezes que julgava encontra-lo. Mas insistia. E não olhava para trás.  Teimosia que só a coragem de se aventurar desperta. Achava que sabia de algo, talvez o suficiente para se localizar, mas havia segredos labirínticos naquela escuridão impenetrável. Ela se esquecia de procurar conhecer o que estava no começo, lá onde a noite daquele olhar ficou escura, sem estrelas até. Se deparava com bifurcações, encruzilhadas, tinha que tomar decisões rápidas. Cada segundo era precioso no percorrer daquele caminho.

E caminhando chegou ao final, mas não ao destino que esperava. Porque, no fundo, no fundo, bem naquela parte do coração, a mais ingênua de todas, ela sonhava que o fim podia ser melhor do que aquilo que todos imaginavam. Sonhava com um fim que fosse recomeço, agora para caminhar acompanhada.

Mas ela encontrou vazio o esconderijo da lua, que agora iluminava novamente a noite daqueles olhos, por alguém que conhecia o atalho. Então respirou fundo, sentou na beira da estrada e finalmente pôde descansar. Porque o que matava aos poucos era a dúvida, não saber como seria o final daquela jornada. E chorou, porque a paisagem não era bonita como havia sonhado, mas era o suficiente para fazer doer o coração.

Sentou na beira da estrada e esperou, esperou até que o novo dia clareasse o mundo, dissipando aquele caminho escuro e iluminando seus olhos com a esperança de trilhar novos rumos. E quando o último pedaço de céu foi pintado de anil, ela se levantou, sacodiu a poeira do corpo, arrematou o rosto com um olhar sereno, e seguiu. O caminho se faz ao caminhar. Quando a noite da saudade voltasse, ela queria estar já longe, sempre mais e mais distante. Esperando que a saudade virasse apenas lembrança e a noite fosse apenas uma noite.  
Até lá, cada estrela pareceria uma lágrima. 

quarta-feira, 14 de março de 2012


Ele encaixava no seu abraço como ninguém mais era capaz de fazer.  Sentado, envolvia sua cintura, a cabeça pousada em seu peito, rosto voltado pra cima, olhos fechados, sorriso tranquilo.  E ela passeava os dedos pelos cabelos escuros, tão bonitos, que pediam carinho meio sem querer. Deslizava, absorvendo texturas, sentindo o peso suave sobre o peito, sorrindo intranquila para aquele sorriso que, se não inocente, ao menos desavisado.

Sim, desavisado. Porque ele não fazia ideia do que se passava naquele coração que podia ouvir bater, meio descompassado, através do burburinho de uma igreja quase vazia. O querer dos outros, quando difere do nosso, pode ser tão barulhento!
Mas ele não podia saber que no espaço daquele abraço, enquanto ele pensava na volta pra casa, ela imaginava tardes inteiras, cuidados, toques... E os carinhos que escapavam desses pensamentos fluíam pelo corpo dela que, sem querer, regia. E sorria. E o olhar brilhava. Ele, bobo, não via. Nem percebia a respiração que acelerava. Que ela era do tamanho exato do seu abraço.

Ela nunca era a primeira a sair do abraço.  Permanecia sonhando, tocando o quanto podia, até sentir aquele momento de hesitação, um pouco antes do afrouxar do abraço, do sorriso meio aéreo, e o distanciamento que levava embora um pouco do calor, deixando a vaga lembrança de um perfume que a acompanharia até a hora de dormir, invadindo sonhos.  

Ela partia, deixando o calor e o perfume, as texturas e os carinhos, decidida a não sonhar naquela noite, ou nas próximas. Absolutamente certa de que ao longo da semana iria superá-lo... E no domingo teria uma recaída. De novo.
Partia com a sensação de um abraço solitário, só de braços, não de almas. E queria mais, esperava mais. Era sua última oração antes de deixar a igreja, que ardia no peito e fazia palpitar de expectativa.
Um abraço unisse corações, que atasse destinos. Um abraço que apertasse o laço e virasse nó.